quinta-feira, 17 de março de 2011

Pensar Barra Velha



 “Barra Velha, nosso pequeno Paraíso...'Muito poucos sabem pensar, mas todos querem ter opiniões. - Arthur Schopenhauer'”.

Esse texto é um comentário-dialógico que teço a partir das contribuições de uma amiga de Londrina/PR. Uma pessoa que muito me ajudou e ajuda a pensar.

Geozani,

Você, a partir de Schopenhauer, toca em uma questão de fundo que é fundamental para os dias atuais. Principalmente se pensarmos em um processo de gestão local que pode fundamentar-se em lógicas ou formas de pensar que pouco contribuem para o desenvolvimento significativo do mesmo. Isso toca numa questão de fundo epistemológico, num ponto onde se entende que é fundamental aprender a pensar. Vivemos em um contexto democrático, logo, seria crucial pensarmos em uma democracia cognitiva em que, ao aprender a pensar - sentido de saber-pensar de forma cidadã, os sujeitos, em geral, poderiam inserir-se social e cognitivamente nas discussões, nos embates, nas trocas, nas proposições, enfim, na elaboração de ideias e propostas que desencadeassem formas cidadãs no trato com as questões públicas locais. A opinião é sempre carregada de senso comum e de generalidades. O pensar exige análise, compreensão, apreensão da realidade. O ato de pensar exige ainda, fundamentos que lhe dêem suporte, que lhe sirvam de referencial para tecer uma dada elaboração ou posicionamento. Não são poucos os que preferem as práticas ao invés das reflexões e análises. Pensar exige esforço e sistematização. No caso da gestão do lugar, poderia se pensar que, saber-pensar poderia se constituir como um dos elementos fundantes da lógica administrativa. Para toda ação, não uma reação, mas um pensar comprometido, responsável, prudente. A lógica cartesiana implantada em muitos sistemas é aquela da fazeção – “vamos fazer e fazer obras e mais obras”, sem pensar nas conseqüências, nos reflexos, na multiplicidade de reações que são desencadeadas a partir de cada ato, de cada ação desenvolvida. Como enfoca Morin (2005), numa democracia cognitiva, os cidadãos não estariam mais condenados à ignorância dos problemas vitais. É isso que falta em muitas instâncias. Um povo que concebe a cidade enquanto contexto educador – o bairro, as ruas, as vielas, os pontos turísticos, enfim, tudo que constitui a cidade e seu contexto torna-se ambiente educador, torna-se espaço de prática da democracia. Não é apenas problema do governo uma obra em determinada rua ou espaço público, é problema de todos porque diz respeito à vida de todos, por isso, precisa ser pensado junto, precisa ser pensado no coletivo. Nesse contexto, concordo com Morin (op.cit.), no sentido de que se precisa pensar numa ética da resistência à barbárie. Já chega de amadorismo, já chega de fazer de conta que se administra, já chega de balelas quando se trata da coisa pública, do espaço de vida de todos. A população, o povo em geral, quando educado para o saber-pensar, pode e deve agir no sentido de resistir eticamente a toda forma de esgarçamento da vida; a toda forma de corrupção e desvio de conduta. Para isso, é preciso que se caminhe na direção de uma sensibilização socioambiental enquanto ato inicial de um processo do saber-pensar para o pensar-bem a vida e seu meio. Barra Velha é, de fato, um paraíso, mas tem ficado a mercê de lógicas infratoras, contrárias a uma democracia cognitiva – parece que manter o povo na ignorância garante melhor o direito aos cargos e vagas no administrativo. O pensamento elaborado e que tem como base um conhecimento ou um dado saber sobre os fatos, fenômenos e acontecimentos ajuda de modo mais específico a enxergar as variáveis, a interpretar as causas, a dar direcionamentos. Aprender a aprender administrar faz bem e não gera ônus inapropriados. Finalizo com uma citação do Morin (2005, p. 170-171) que considero ímpar: “Essa reforma das mentes pode ser conduzida pela educação, mas infelizmente o nosso sistema educacional terá de ser previamente reformado, pois está baseado na separação: dos saberes, das disciplinas, das ciências; produz mentes incapazes de conectar os conhecimentos, de reconhecer os problemas globais e fundamentais e de apropriar-se dos desafios da complexidade”, Na seqüência, continua o autor citado: “A reforma do espírito é um componente absolutamente necessário para todas as outras reformas. Leva a um modo de pensamento que permite compreender os problemas planetários e tomar consciência das necessidades políticas, sociais e éticas; isso é ainda mais importante na medida em que o papel da consciência humana é agora primordial para a salvação do planeta”. Saber-pensar implica no desenvolvimento de uma outra ética e outra consciência de mundo e da vida.

Obrigado, minha amiga, por partilhar suas ideias e provocar as minhas.
Valdir

sexta-feira, 11 de março de 2011

O faz de conta no trânsito de Barra Velha


        O amadorismo na gestão do trânsito em Barra Velha mostra, contundentemente, o descaso com o dinheiro público. O desrespeito com a contribuição do cidadão barravelhense. Exige-se e briga-se na justiça para que se efetive o valor a ser cobrado e pago pelo imposto de renda – o que deveria e deve implicar em desenvolvimento da cidade – no entanto, o que se percebeu com as pseudoreformas foram os gastos desnecessários com mão de obra e artefatos de sinalização que estão sendo retirados das vias públicas que voltam a funcionar no formato anterior à mudança realizada.
            Será que não se poderia, antes, fazer croquis e mapas provisórios visualizando-se o que se provocaria e no que resultaria tal mudança? Será que não se poderia desenvolver análises de perspectiva em sentido de se perceber se tal finalidade seria efetiva ou deveria ser descartada? O planejamento serve para isso. Serve para se prever, perceber, antever, organizar, detalhar, estruturar, enfim, dar direcionamentos que, no mínimo, evitem tais desperdícios.
            Barra Velha passa por uma experiência estranha de gestão em muitos dos seus segmentos. Parece que a cidade se tornou palco ou laboratório de experimentos em que muito pouco se apresenta em termos de resultados satisfatórios. Em um laboratório, estudam-se várias possibilidades até que uma seja a mais assertiva. Mas isso não pode acontecer no contexto de um ambiente público. Por isso, as cartas, os mapas, as plantas, os croquis, os desenhos, as projeções são elementos que ajudam no sentido de se encontrar um caminho que seja favorável e que alavanque o desenvolvimento socioambiental de um contexto municipal ou de uma cidade.
            Fico impressionado com o que se faz com o dinheiro do povo. Como se fará a prestação de contas desses gastos? Colocam-se placas, desvios, mudam-se as rotas, utiliza-se de tintas, de combustível, e muito mais. Tudo isso em vão? O que falta para se fazer um trabalho cuidadoso e competente no contexto dessa cidade? Barra Velha tem uma beleza sociocultural e socioambiental únicas. É uma cidade linda e merecia, pelos menos, cuidado na forma de fazer as melhorias.
            O que se constata in locu, é que, pensar um pouco, ou refletir cuidadosamente sobre as ações poderia, no mínimo, evitar exageros e atitudes precipitadas e pouco ajustadas à dinâmica da cidade.  Nessa direção, entendo a urgência de uma gestão compartilhada e prudente quando se trata de mudanças ou transformações no ambiente de vida das pessoas. Mas para que isso aconteça é preciso, primeiramente, que se reformem os pensamentos e depois as instituições. Em outras palavras, é preciso aprender a pensar, como enfatiza Edgar Morin. Enquanto isso não se concretiza, vive-se um faz de conta em termos de mudanças consistentes, seja na gestão do trânsito ou em outras instâncias. O que significa essa mudança? Muda o quê? Muda para quem? O Saber-Pensar, enquanto exercício político faz bem e ajuda no processo de desenvolvimento humano e social.